domingo, 15 de junho de 2008

#19: identidade de classe

Em passos firmes ao ponto de ônibus, uma Rebouças sem trânsito, parada. Uma vez que trânsito implica em movimento mesmo que mínimo. Subindo a pé o chão treme, mas não pelos passos apressados. Uma onda de gritos parece ressoar no asfalto da Avenida Paulista: formigueiro humano de professores e professoras. A rede estadual de ensino está em greve. Em apitos, bandeiradas e gritos os professores reivindicam. Não me pergunte o que, não era muito inteligível. Eu, andava na calçada sem saber ao certo se ia no meio da multidão - com certeza reivindicavam algo com a qual concordaria - ou se continuava em passos largos a travessia pela Paulista rumo ao metrô - cronograma estourado em meia hora já -. Futuro professor, eu - num belo exemplo - fugi pelos subsolos do metrô escutando pessoas que também gritavam qualquer coisa para os professores. Deparo com um senhor de poucos cabelos grisalhos, semblante feliz, sacola de supermercado puída em mãos, conjunto esportivo em tons pastéis obtidos num longo processo de desbotamento que me diz: "agora o governador vai escutar a gente". Mesmo de fone de ouvido, as palavras claras preenchem meus ouvidos. Presos na rede, em firmes fios que os fazem balançar como fantoches entre os alunos e as políticas públicas, os professores sonhavam. A cena só me causou impacto e desilusão. Não há poesia em tristeza alguma, poetas tristes devem ser masoquistas.